quinta-feira, 6 de outubro de 2011

floresta amazónica #5: estranha inquietação.


Aproxima-se o inverno, e com isso, as tarefas intensificam-se, na floresta. Vemos tantos animais atarefados na construção de lares fortes ou na acumulação de alimentos, e a nós cabe fornecer-lhes abrigo e comida. Temos, portanto, também uma vida bastante ocupada durante este período de mudança de estação: além do habitual trabalho fotossintético sempre entediante, trabalhamos em prol de todo o ecossistema.
Por isso, como somos duas árvores que pelas raízes se uniram, resta-nos trabalhar em equipa. E trabalhar em equipa significa trabalhar por turnos. Ora, ao trabalharmos por turnos, personificamos o sol e a lua, no dia e na noite: não trabalhamos em simultâneo, temos apenas momentos bastante breves de passagem de tarefas um ao outro (algo que equivalha ao nascer ou ao pôr do sol). Estamos, portanto, quase que fisicamente separados um do outro pela barreira do tempo e dos horários, ainda que unidos pelas raízes de forma progressivamente mais indestrutível.
Isto é duro. Muito duro mesmo. Não suporto dedicar-te, diariamente, apenas cerca de dois por cento das minhas vinte e quatro horas; não consigo suportar muito mais este stress desmedido sem equivalentes momentos de ternura, no conforto dos teus ramos e das tuas folhas; não consigo suportar esta distância enorme que nos separa categoricamente só para correspondermos às necessidades da biosfera. É mais forte que eu.
Adoro o nosso nascer do sol e venero o nosso pôr do sol. Para mim, são os melhores momentos do dia: apesar de estar todo o tempo a teu lado, só aí posso estar contigo de forma real e concreta. E apesar de saber que estes horários foram estabelecidos pela natureza e que nada de significativo podemos fazer para os alterar, preciso que ambos façamos um esforço para melhorar esta situação.
Preciso do teu oxigénio, e não aguento muito mais este sufoco.


Nota: Este post está integrado na coleção "floresta amazónica". Os números anteriores podem ser consultados aqui: #1, #2, #3 e #4.

Sem comentários: