sábado, 4 de junho de 2011

floresta amazónica #2: dependência;


Crescemos. As árvores cresceram. Temos agora sensivelmente mais vinte centímetros que há dois meses e, cada vez mais, tornámo-nos resistentes às adversidades do ambiente tropical da Floresta Amazónica: a chuva incessante, a temperatura sufocante, a pouca mineralização dos solos e consequente competição pelo mesmo alimento, o mundo! Agora, mais do que há dois meses, sabemos dar o devido valor à mais ínfima gotícula de seiva que nos corre no tronco; agora, mais do que há dois meses, sabemos que a melhor forma de contrariar a água que não para de cair é colocar um sorriso e esquecer que chove, que quase tudo se destrói e corrói; agora, mais do que há dois meses, sabemos regular a temperatura dos nossos corpos, para que não enlouqueçamos e sufoquemos pela aragem que se torna irrespirável e desconcertante de tão quente que se põe; agora, mais do que há dois meses, sabemos que é possível ser feliz, apesar de o mundo nos tentar ao sofrimento. Falo por mim.
Nestes dois meses, as minhas raízes cresceram e aproximaram-se das tuas. E entrelaçaram-se de tal maneira que se começaram a ligar, como que por magia. Assim, quando um de nós está necessitado de determinado nutriente, o outro partilha-o, como se de uma única planta se tratasse; da mesma forma, quando um de nós vê as suas células saturadas de água e não aguenta para a soltar para a biosfera circundante, o sofrimento é partilhado, e metade dessa porção de líquido é transferida para o sistema citológico do outro, como se de uma única planta se tratasse.
Esta ligação é tão profunda quanto verdadeira; tão pura quanto eterna. Uma vez ligados por esta via, o porte de árvores da nossa envergadura não permite que tal ligação se quebre.
Tornei-me dependente, e cada vez mais o sinto. E alegro-me profundamente quando percebo que tal dependência é partilhada, assim como os nutrientes e a água. No entanto, ao contrário de todas as outras coisas que nos roubam a independência, esta não mata, não destrói, não corrói.
Ao contrário de tudo o resto, esta dependência é fonte de felicidade, de luz e de esperança.
Ao contrário de tudo o resto, esta dependência não destrói, mas sim constrói.


Para os leitores mais desatentos, a referência aos dois meses relaciona-se com a data de publicação da mensagem floresta amazónica;, redigida e tornada pública, em finais de março.