
«A Spondias tuberosa (popularmente designado umbuzeiro, no Brasil) é uma árvore de pequeno porte (mede até seis metros de altura) de copa larga (até quinze metros de largura) originária dos chapadões semi-áridos do Nordeste brasileiro, que se destaca pela sua sombra e aconchego. O umbuzeiro vive aproximadamente 100 anos, e é um símbolo de resistência.
As suas folhas, de grande valor alimentício, com um sabor azedo, são usadas como alimento pelos seres humanos. A partir de projetos de beneficiamento do umbu (fruto do umbuzeiro) em pequenas fábricas da Bahia, esta fruta passou a ter também uma importância na geração de renda e organização das comunidades rurais daquela região.
Fruto muito apreciado e consumido, tanto pelo homem como pela fauna, o umbu possui um caroço revestido por uma suculenta polpa e, na superfície, por uma película esverdeada, tendendo, à medida que amadurece, para a cor amarela.»
Wikipédia: texto adaptado
Para a fraca Spondias tuberosa, as ameaças surgem de todas as direções e sob todas as formas. Dele, o Homem colhe frutos e folhas de forma exaustiva, todos os dias, para sua alimentação, e é uma grande fonte de rendimento para os agricultores.
Eu moro nas imediações de uma zona com bastantes umbuzeiros, e nunca vi nada igual. Quando é dia de colheita, as árvores ficam despidas, praticamente mortas pela ganância e sede de dinheiro do Homem. Costumo passar tardes inteiras debaixo do conforto de um umbuzeiro novo, verde, que ainda não está bom para a colheita. Encosto-me ao seu tronco enquanto leio tranquilamente os meus livros preferidos, e depois aproveito a sua sombra para fechar os olhos e sonhar com um mundo melhor.
Esta árvore é peculiar: desenvolveu um carinho especial por um beija-flor que o visita todos os dias, sem exceção, para se alimentar do néctar das suas bonitas flores brancas e amarelas. Ao contrário dos outros beija-flor, este não o abandona assim que se acaba de alimentar. No final da refeição, a pequena ave pousa num dos ramos mais fortes do umbuzeiro, e aí permanece por longas horas: como se pudessem falar um com o outro, e desabafar as suas agonias.
Intriga-me aquela simbiose. É certo que o beija-flor se alimenta daquelas flores, mas também poupa o trabalho de polinizar campos àquela árvore. No entanto, é algo mais profundo, algo mais intenso.
No outro dia, larguei o meu livro de aventuras policiais e tentei subir à copa do umbuzeiro, para tentar descobrir o que fazia lá aquela ave; no entanto, escorreguei e não cheguei a nenhuma conclusão. Mas não me dei por vencido, e voltei a tentar dias mais tarde; voltei a cair.
Certo dia, dirigia-me para a zona de arvoredo como era meu costume. Tinha sido dia de colheita, e o meu umbuzeiro não se tinha escapado desta vez. Estava transfigurado, esquelético: a única coisa que restava era meia dúzia de flores e um umbu, esquecido pelo Homem. Mas o beija-flor estava lá, nos grandes braços daquela árvore, como era seu costume.
Nesse dia, voltei a tentar trepar, mas não precisei de subir muito para ver o que se estava a passar naquele ramo, pois as folhas já não constituíam interferências quer para a minha visão, quer para a minha audição daquela cena fabulística.
A dada altura, o beija-flor penetra com o seu bico fino o único fruto que restava ao umbuzeiro, e ele geme de desespero. Tive oportunidade de assistir a toda a conversa que daí para a frente se desenrolou.
- Isso doeu muito, passarinho. - choramingou o umbuzeiro.
- Desculpa-me, amigo. Desculpa-me a sério. Eu tenho fome, e não há mais nada que eu possa comer. Eu nunca te quis magoar. - replicou o beija-flor, arrependido da sua ação menos correta.
- Esperava de ti apenas apoio, carinho e dedicação. Fiquei desiludido. - informou a árvore.
- Mil desculpas, não te quis desiludir; fi-lo sem pensar. - respondeu a ave, quando as primeiras lágrimas lhe caiam dos pequenos olhos.
- Eu desculpo-te, pequeno amigo. - contrapôs.
- De certeza que sim? - inquiriu o beija-flor, surpreendido.
- Claro que sim. Pediste desculpa, e estás aqui comigo mesmo quando não tenho mais nada para te oferecer; dás-me a tua força quando preciso, e estás comigo sempre nos momentos mais difíceis. É claro que te desculpo. - concluiu o umbuzeiro.
Surpreendido, o beija-flor perguntou:
- Amigo umbuzeiro, não achas que essa atitude é de alguém fraco? Tu, como árvore imponente, não deverias perdoar assim tão facilmente. Não concordas?
Ao que a planta respondeu:
- Eu não te desculpei por ser fraco; eu desculpei-te por ser forte o suficiente para perceber que todos cometemos erros.
Ambos sorriram, e voltaram ao que eram dantes, esquecendo o que aconteceu. E todos os dias, o beija-flor visita o seu amigo umbuzeiro. Com flor ou sem flor, a ave continua a alimentar-se da árvore. Mais que não seja, de uma palavra de conforto.
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