terça-feira, 19 de abril de 2011

climb.

A montanha é alta, sempre o soube. Uma das maiores que existem, arrisco dizer, e muita gente o diz. E eu, no remoto sonho e esperança de chegar ao cume, ouso tentar escalá-la.
As pedras brancas que a povoam, em comunidades bem organizadas, refletem a luz do sol brilhante, e com ela, o seu calor tórrido que tantos amedronta e afugenta. Estas pequenas pedras soltas não são, de todo, as mais rígidas da escala de Mohs, mas ainda assim, trepá-las envolve um sacrifício tão grandioso e um espírito de entrega tão sublime que é impossível contornar dores, cansaço e, sobretudo, desmotivação. Desmotivação pelos sucessivos recuos a que somos obrigados quando uma rochinha mais atrevida se nos escorrega por baixo da bota suja e desgastada pela dureza da caminhada. E sim, estas quedas são tão frequentes que, por vezes, pode-nos parecer que, ao darmos um passo em frente, estamos a recuar dois; não é mentira de todo. No entanto, há que pensar em outros momentos, aqueles em que as pedras ajudam à escalada, aqueles em não há a tal pedra marota e escorregadia a fazer-nos recuar, apenas pedras fixas e vegetação verdejante onde nos podemos agarrar firmemente para subirmos e avançarmos no nosso objetivo-cume.
E, de facto, penso que encontrei um trilho acertado onde as pedras são mais fixas e a gravilha não foge tanto das solas das botas. Por este trilho consegui subir muitos metros e a vista é fantástica. O topo está agora mais perto, e o meu objetivo mais fácil de atingir.
Mas nem tudo são mares de rosas. Aliás, as rosas apenas existem no cume da montanha; aqui, apenas leitos rochosos coexistem com o terreno barrento a que os geólogos chamam terra-rossa, por resultar da degradação das pedrinhas brancas que revestem a encosta. Esses mares de rosas só existem em sonhos, e o meu sonho é o topo desta montanha.
Muitos me perguntam, então, como se chama esta montanha à qual dedico tanto tempo da minha vida a escalar; a qual me marcou o corpo com cicatrizes fortes e profundas; aquela que me desgasta dia-a-dia pela dureza do trilho. Pego então no mapa-mundi e com voz firme declaro: "Esta montanha não está aqui. Aliás, nem tem mapa para orientar os alpinistas". Chama-se Felicidade.

E agora, perto do topo, sinto-te junto a mim, sinto-te ligada a mim. Proponho-te então um desafio: sobe comigo esta encosta íngreme e acidentada; ajuda-me na caminhada por estes montes difíceis de escalar, pois amparar-te-ei e dar-te-ei a mão sempre que alguma pedra te fizer escorregar a bota. Ainda que muitos te abandonem, eu não te abandonarei; ainda que muitos se afastem de ti, eu não me afastarei; ainda que muitos não apreciem as coisas que fazes, eu apoiar-te-ei no que for preciso; ainda que muitos não gostem de ti, eu amo-te.

1 comentário:

Anónimo disse...

Desejo-vos sorte nessa subida :)