quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

janela do corredor;

Seis e quarenta e cinco da manhã de um dia normal, uma segunda-feira como tantas outras: o tradicional "Billionaire" que me serve de despertador toca como se não houvesse amanhã, e faz-me descer de volta à Terra depois de uma noite bem passada. Mas não, não quero acordar! Alcanço o telemóvel ainda meio ensonado, desligo o alarme, e programo-o para as seis e cinquenta e cinco. São estes escassos dez minutos que me fazem por as ideias no lugar, compreender que os sonhos são apenas frutos da imaginação e não mais que isso; entristeço quando chego a esta conclusão, mas preciso mesmo deste tempo de reflexão, senão acabo por passar o dia todo a esperar coisas impossíveis.
Toca o segundo despertador: é desta que tenho de acordar. Levanto-me e dirijo-me ao corredor. Lá ao fundo, uma janela sorri para mim. Aproximo-me dela, abro o trinco e logo sinto uma aragem fria a entrar pela casa adentro. Mas ignoro. Abro ambas as portadas castanhas e ouso espreitar lá para fora, debruçando-me sobre o parapeito. A minha cabeça fica cerca de quinze centímetros no exterior, e de imediato uma rabanada de vento gélido me atinge a face direita com uma brutidão tal que me faz doer os dentes, congela a língua e sai de novo pela face esquerda.
Então recolho-me dez centímetros e ponho-me a pensar: dantes, daquela janela tinha-se uma boa vista para o bairro. Inclusivamente até se conseguia ver a via rápida lá ao fundo, com automóveis a passar a toda a velocidade a qualquer hora do dia. Agora não. Há uns tempos, construíram uma casa que me tapa toda a vista. E mesmo que tenha bastantes falhas, aquela casa parece sólida e até já obteve comprador. Eu, que acompanhei a construção dessa mesma casa (de raiz), bem sei que certos pilares não foram assentes com a devida consistência, mas mesmo assim, depois de umas obras de remedeio, até ficou com bom aspeto. Mas, é claro, ao mínimo temporal, a casa dá de si e treme por todos os lados, porque um remedeio nunca é tão bom como uma construção sólida de origem.
Já a minha, é sólida e já cá está há quase cinquenta anos. Nunca precisou de obras desse tipo, mas também nunca teve outro comprador que não fosse a minha família. Porquê? Se calhar porque nunca a pus verdadeiramente à venda. Sempre defendi que não a devia vender. Até já cheguei a martirizar-me para não cair na tentação de a pôr à venda. Mas tenho vindo a mudar de opinião aos poucos. É inevitável. E agora é o que mais quero.
Nesta altura, outra rajada de vento sopra forte, e a portada direita fecha-se com tal rapidez que nem tive tempo de reagir. Atingiu-me entre os olhos, e acordei de vez.
Mas contrariamente ao que acontece com o alarme, a minha opinião mantém-se, mesmo depois de despertar.

1 comentário:

Maria João disse...

Gostei tanto, irmão (: