Sábado, duas e meia da tarde: dia normal, hora mais normal ainda. Estou em casa, e isso ainda mais vulgar é. Aqui estou, sem nada de interessante para fazer... ah, espera, isto também é normal! O que não é nada normal é a forma como me sinto. Sim, a forma como me sinto. Talvez devesse estar em baixo, como já vem sendo hábito, mas não. Pelo contrário. Sinto-me indiferente com certos problemas com que talvez me devesse preocupar, mas ainda bem que o assim é. Sinto-me feliz. É uma felicidade vazia, eu sei; melhor que ninguém, eu sei disso. Mas é felicidade, e o resto não importa.
Também sei que é bastante improvável que alguma vez esta felicidade deixe de ser oca, vazia, vaga, e entristeço quando me lembro disso. Mas enfim, isso agora não importa, não vou começar a dispersar.
Voltando ao assunto que me levou a pegar em meia dúzia de folhas de papel quadriculado velho, num livro de geologia de décimo segundo ano que me serve de base para as folhas, também ele velho, e numa esferográfica degradada pelo uso descuidado e pelo desgaste do tempo, apeteceu-me abandonar o espaço onde sempre me encontro e ir arejar para o quintal, aproveitando o dia fantástico que está hoje. A princípio, sentei-me nas escadas velhas, de um mármore que já foi branco em seus tempos de juventude, que fazem ligação entre o quintal e uma espécie de alpendre (ou terraço, como lhe chamo), e o meu cão acompanhou-me, imitando-me. Foi gratificante: já há tempos que nem ele me imitava no que quer que fosse, nem ele obedecia às ordens claras e corretas que lhe dava. Mas hoje foi diferente, e, sem razão aparente, seguiu-me os passos. Afaguei-lhe o pelo castanho com ternura e ele agradeceu-me o gesto com a sua atenção.
Depois deste momento, lembrei-me de subir as escadas velhas e desgastadas, para matar saudades dos bons velhos tempos passados neste alpendre que meu avô construiu com o vigor de suas mãos e o suor de seu rosto. Subi, olhei sobre meu quintal, também ele velho e feio, onde nem uma macieira e uma laranjeira contrastam com a tristeza do ambiente: a macieira, sem folhas, suscita-me sentimentos negativos de mágoa e saudade; a laranjeira, toda ela verdejante, tem uma doença que afeta a qualidade das laranjas, não permitindo que o doce característico se ative, prevalecendo o ácido dos citrinos pouco maduros.
Mas, basta!, isto deprime. Não me quero sentir assim. Entro num anexo que aqui existe há muitos anos e vêm-me a cabeça bons momentos da minha juventude. Nessa altura, tudo era tão simples quanto escolher um lápis de cera para pintar um desenho de animais do zoológico; mas agora, pedem para sermos nós a decidir com que cor queremos que esse animal venha ao mundo real, exigindo conhecimentos de genética que não se aprendem a pintar desenhos com lápis de cera.
Olho à volta, e a bagunça desta sala salta à vista de um cego permanente. E agora penso: outrora, ela estava bem arrumada, e todos os dias tinha a preocupação de olhar por ela. Este espaço fazia-me feliz e era o meu refúgio. Agora já não. Sinto-me mal dentro dele, e vêm-me as lágrimas à cara quando relembro que uma amizade se travou aqui dentro, e agora está tão desarrumada e suja que me faz sentir mal dentro dela.
Saio dessa salinha e o ar fresco bate-me docemente nas faces rosadas. Sento-me de novo nas escadas e sorrio: isto não é nada normal - eu estou ótimo.
1 comentário:
Já te disse tudo o que tinha a dizer sobre isto :)
Óptimo texto, rapaz :b
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